
Fotos: Paloma Verçosa
Alunos da PUC-Rio se organizaram hoje em uma passeata contra a absolvição do Presidente do Senado, Renan Calheiros. A concentração aconteceu 13h nos pilotis do campus da universidade na Gávea, com direito a Hino Nacional antes dos manifestantes ultrapassarem os portões e fecharem a Avenida Marquês de São Vicente. Inúmeras faixas foram exibidas com dizeres indignados, como “Senado Covarde”. E as palavras de ordem não tiveram tom mais brando, “Brasil atrasado, Renan no senado”, “Boi da cara preta, pega o senado porque só tem picareta”, são alguns exemplos, para não citar os palavrões.
Agregaram estudantes, idosos, e indignados em geral, como o vocalista da banda Detonautas, Tico Santa Cruz, que, em declaração ao “Desce 1 Lead”, defendeu a união nas reivindicações. “Se a gente não unir todo mundo, vai ficar cada um no seu lugar fazendo barulho e, na verdade, sem fazer barulho nenhum. A gente tem que juntar os movimentos. Aqui tem a sociedade representada, tem o povo, tem as pessoas que estão lutando há algum tempo, pessoas que são vítimas de violência, que estão cheias dessa baderna toda que virou o congresso nacional”, declarou o cantor.
No último dia 12 de Setembro o senador Renan Calheiros foi absolvido no Conselho de Ética do relatório de cassação de seu mandato. Ele era acusado de pagar uma pensão à jornalista Mônica Veloso com dinheiro fornecido pelo lobista Cláudio Gontijo, da construtora Mendes Júnior. Foram 40 votos a favor da absolvição, 35 pela cassação e 6 abstenções, desses, os senadores do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, Francisco Dornelles e Paulo Duque, absolveram Calheiros.
Depois de tais acontecimentos, estudantes do Curso de Ciências Sociais da PUC-Rio, entre eles Talita São Thiago, resolveram se manifestar contra a decisão do senado. “Nós estávamos indignados e resolvemos fazer alguma coisa, e então a idéia foi se disseminando para o Diretório Central dos Estudantes (DCE) e os Centros Acadêmicos (CAs). O Brasil sofre muito de impunidade. Desde o “Fora Collor” tivemos muitos problemas e poucas iniciativas, a gente acredita que isso é uma forma de mostrar que o povo brasileiro sabe das coisas e não fica a parte”, disse a aluna.
Neste clima de indignação muitos jovens responderam ao chamado. Organizadores disseram que no início eram 50, mas nas ruas se tornaram 1000 manifestantes. “O movimento é contra a corrupção. Políticos como o Renan irritam o povo. Como um político corrupto é absolvido e ainda sai rindo? Ele tinha que ser um exemplo sendo preso”, falou Vinicius Costa, Diretor de Meio Ambiente do DCE da PUC-Rio. Mas alunos de outras universidades também estiveram presentes. Fernanda Romero, aluna da FACHA, acreditou na manifestação e se juntou ao movimento. “Manifestar fez a diferença na história. Isso pelo menos mostra que a gente está vendo. E o objetivo é esse, é mostrar que o povo está revoltado”.
Para chamar a atenção de todos que passavam na rua, além das faixas e dos gritos uníssonos, foi utilizado um carro de som que acabou servindo de palanque para que representantes do movimento estudantil estimulassem protestos que, de acordo com idealizadores, não foram debatidos. Reforma política, união do movimento estudantil e críticas à PUC-Rio e ao PT. Em parte da passeata inúmeros assuntos, que não se relacionavam diretamente com o caso de Renan Calheiros, foram ditos no microfone. “Tem gente se aproveitando da passeata pra se promover. Estão falando temas não debatidos que muita gente aqui nem conhece direito. É uma manipulação. Precisava ser feito um debate aprofundado sobre estas questões”, questionou Talita São Thiago. Tal mistura causou um tumulto no carro de som e vaias dos manifestantes.
De volta ao caso “Renan”, o movimento causou transtorno para quem estava nas proximidades. Engarrafamentos foram formados, causando a irritação de quem não estava propenso a reivindicações de mudança no congresso. Isto dividiu o público que, em parte, apoiava a boa causa, mas também reclamou da “baderna”. Uma senhora se irritou por estar com seu carro parado sem possibilidades de fugir do transtorno e foi chamada de “mulher de Renan”. Os que simpatizaram com a iniciativa acenaram dos prédios, bateram palmas e até deixaram seus trabalhos para se juntar à caminhada a pedido dos estudantes. “Eu fiquei maravilhada com a beleza dessa turma jovem. Essa garotada não participava há muito tempo. Todo mundo tem que se juntar pra que haja uma mobilização e que todos possam protestar. Nós temos que valorizar o Brasil”, declarou Denise do Rego Macedo após ter sido acolhida na passeata.
Houve quem acreditasse que o ato foi um grito em favor da ética e da justiça nas instituições públicas. “Essa passeata é uma aula viva de ética. Tudo o que nós estamos ensinando dentro de sala estamos vivendo aqui agora. Não adianta só o discurso, a aula da cidadania se faz na rua, chamando a população para o compromisso e a responsabilidade como eleitor”, disse a professora de Ética Cristã, Eva Aparecida Rezende de Moraes, enquanto usava um nariz de palhaço.
Apesar de tanta animação também teve quem não esperasse mudanças após todos irem para as suas casas. “Eu acho que alguma coisa tem que ser feita. Eu acho um absurdo o homem roubar e continuar representando o povo no senado. Infelizmente isso não adianta muito, mas mesmo assim eu acho que tem que ser feita alguma coisa. Tudo é válido”, declarou Márcia Mathias, mãe de um aluno da PUC-Rio.
Carregando um caixão com a foto de Renan Calheiros, os manifestantes seguiram até a praça Antero de Quental no Leblon, onde fizeram um círculo, cantaram o Hino Nacional antes de se despedirem. Tico Santa Cruz terminou o ato defendendo que o movimento estudantil não é cúmplice da “pouca vergonha” que ocorre na política. “Existe a necessidade de mais manifestações. Nós temos que lutar para os políticos usarem os serviços públicos brasileiros. Isto aqui é um cortejo fúnebre, eles assassinaram a ética no Brasil”, finalizou o cantor erguendo o caixão preto com a foto do Presidente do Senado.
OBS: O dia de Bibiana Maia é sábado, isto foi um caso especial.
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