Dezembro 2007


O fim de ano é a época em que todos as pessoas se tornam legais. Seu chefe te dá uma lembrancinha, seus inimigos mandam cartões de natal e as grandes emissoras colocam artistas catando musiquinhas grudentas em um só coro.

Pausa. Este texto tem um caráter pessoal, e não quero que pensem que existe aqui a tão polêmica imparcialidade jornalística.

Voltando. É uma época em que a alegria reina, mesmo que seu vizinho esteja espancando a mulher e você escute.

Neste clima de extrema felicidade e esperança, milhares de pessoas trabalharam em busca de uma grana extra, ou de um emprego que poderia se tornar fixo. Eu fui uma delas. Me vendi ao sistema para conseguir um capital para viajar nas férias, e o que vivi foi algo parecido com a senzala, se me permitem o drama.

Fui auxiliar de loja. Mas…o que diabos é isto? É um funcionário faz-tudo que tem um nome bonito. Eu arrumava araras, dobrava roupas e até varri o chão. E a jornada de trabalho? De 10h às 10h, se eu não tivesse reclamado e chegado atrasada quase todos os dias. E almoço? Me tornei a típíca trabalhadora brasileira que leva quentinha na bolsa. No máximo tinha um microondas, uma geladeira, água e uma hora pra comer tudo e sentar um pouco. Isso mesmo, sentar, porque o dia inteiro eu ficava em pé.

Não trabalhei no interior, foi na área metropolitana mesmo, em uma rede de lojas de roupa feminina bem conhecida. Presente nas zona norte, oeste e sul da cidade. E todo o tipo de gente e bolso comprava lá.

Certo dia escutei na rádio CBN, enquanto ia para o “emprego”, que o Ministério do Trabalho tinha proibido as maratonas de 24h de shoppings abertos para que não ocorresse a corrida por comissões a exploração desenfreada. Eu dei uma gargalhada e as pessoas do metrô me encararam como se eu fosse louca, dá para acreditar? Loucos, ou incompetentes, são estes fiscais do Ministério do Trabalho que não fazem o mínimo de esforço de passear pelo comércio em dezembro. Porque é mais fácil acreditar em papai noel do que achar que os patrões pagam hora extra e respeitam as leis trabalhistas.

E viva a escravidão permanente de quem tem que trabalhar muito para ganhar pouco.

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“A vida não me vem pelos jornais nem pelos livro
Vinha da boca do povo
na língua errada do povo
Língua certa do povo
Por que ele é que fala gostoso o Português do Brasil”

(“Evocação do Recife” Manuel Bandeira) 

 [Baseado em fatos reais] Guilherme dos Santos Junior 01/12/2007 

Ainda me lembro como se fosse hoje… Naquela ensolarada manhã de quarta-feira do dia sete de novembro desse ano. Era o meu dia D. O dia que mudaria a minha história. Antes dele eu era apenas um alguém vivendo entre faculdade, trabalho e casa. Depois, eu iria mudar meu mundinho. Estava prestes a sair da minha bucólica vida para morar fora do país com o propósito de estudar e trabalhar fora por apenas quatro meses, mas tempo o suficiente para realizar esse desejo. Tudo de maneira legal, sem precisar me esconder ou contar historinhas tristes para alguém com o propósito de me aceitarem clandestinamente. Estava muito entusiasmado com a possibilidade de poder conhecer outras culturas, onde as oportunidades de crescimento eram absolutamente impensáveis. Entretanto, a escolha do país não tenha sido muito feliz, Estados Unidos. 

Esse era o destino que queria ter nas minhas férias de verão, hoje em dia o inglês é um idioma que te dá status e quando se estuda em seu país de origem é ainda melhor, porém, havia um obstáculo que estava bem a minha frente. Através dele que saberia se eu iria realizar esse desejo ou não, o tão temido consulado. Levei todos os documentos necessários. Fui com minha melhor roupa descartando um simples detalhe de ter chegado alguns míseros minutos atrasados. O que não influenciou na entrevista para a obtenção do visto.

Eis que o dia D estava apenas começando e me propondo um futuro promissor. Sabia que a entrevista era feita com um nativo e que não falava português. Até aí tudo bem. Até porque tinha investido minhas economias pagando uma professora particular de inglês só para eu não dar bobeira na hora da entrevista. A imagem que eu tinha dos entrevistadores era a que eu já tinha ouvido em lendas que circulam o tenebroso prédio da embaixada americana. Iria ser entrevistado por uma pessoa antipática na certa! Pois bem, me preparei dias antes e estava contando com todas as ajudas possíveis. Desde patuá até mandingas que os feiticeiros do candomblé dizem dar certo.

É chegada à hora, peguei minha senha, sentei na cadeira de espera em frente ao painel que me informaria para qual guichê teria que me direcionar e então ter a tão esperada entrevista. Chegando ao guichê, me deparei com o tal velho, ou melhor, a tal velha rabugenta que tanto falavam. Era daquele jeito que todos diziam, testa enrugada, bochecha enrubescida, cabelos grisalhos e nada, mas nada simpática e, para completar, era extremamente impaciente. Eu achava que o fato de ser entrevistado por uma mulher, seja em uma entrevista para emprego ou algo além, tudo se tornaria mais leve e confortável.  A mulher sempre teve a delicadeza como personalidade principal dentre várias outras qualidades daquelas que confortam os homens mais aflitos nos momentos mais nervosos. Que nada!  Com essa senhora, era diferente. A mulher era a rispidez em pessoa, “o cão chupando manga”. Ali, deixei de acreditar nos mitos que faziam sobre os americanos e passei ter certeza que tudo era verídico. São um bando de antipáticos prepotentes que se acham estar acima de tudo e de todos.

Logo que eu entrei, ela mandou colocar “my rigth finger” num aparelho eletrônico para deixar minha impressão digital do dedo polegar direito. Inquieta, me mandou trocar a mão e por o polegar esquerdo no aparelhinho. Era uma espécie de ritual de identificação, o começo de um julgamento onde você é julgado por um crime que não cometera. Foi tudo o que entendi até então. A senhora americana de cabelos alvos estava preste a me metralhar com perguntas ultracabeludas atenta em encontrar uma brecha onde pudesse descobrir uma maneira de negar meu visto.

E em cinco minutos vi meu sonho se desfazendo como uma montanha de dunas em plena tempestade de areia. Não entendia bulhufas que aquela velha antipática dizia, nem ela o que eu falava. Ela fazia gestos, eu respondia mostrando documentos. Quando não entendia o que eu estava querendo falar, me interrompia me deixando irritado e partia para uma nova e complexa pergunta. A entrevista parecia mais uma aula de expressão corporal.

Eu gesticulando daqui, ela respondendo de lá, entretanto não havia sincronia. A entrevistadora me lançava uns olhares gélidos enquanto observava meus documentos já me condenando a permanecer por aqui.

Veredicto final: “Your visa was denied!” Naquele momento pigarreei com intuito de engolir a saliva que teimava em me incomodar. Percebi ali, que o pigarro não tiraria meu incomodo e como já estava prevendo, foi tudo por água abaixo. Um projeto de anos se desintegrando em poucos minutos. O mundo caiu sobre minha cabeça. Tinha sensação de ter recebido de um médico urologista a notícia que um câncer de próstata, descoberto há pouco tempo, tenha retalhado as minhas possibilidades de viver nada mais que dois meses. Tudo por água abaixo. Fui condenado a viver em uma prisão sem grades em solo brasileiro de onde não poderia tentar outro visto nos próximos seis meses.

Erro de comunicação? Deveria ter me expressado melhor? Literalmente falando, perdi o visto por“ não falarmos a mesma língua.”   

Por Diogo Cavalcanti

Dez horas da noite. Estou cansado. Não tenho vontade de dormir.
Tento a TV.
Tiros e sangue no 62.
Um sucesso de bilheteria no 61.
Um clássico de Fellini no Cult.
Na TNT, um filme que eu já vi.
Na Fox, um filme que não quero ver.
No Multishow tem música.

Na MTV também.
Não vejo novela na Globo, também não vou ver na Record.
Pra mim já chega.
Vou dormir.

Um copo de leite com Nescau e alguns biscoitos.
Escovo os dentes, arrumo a cama.
Estou pronto.

Deito e fecho os olhos.
Espero um pouco.

Um pouco mais.
O sono não vem.
Conto carneirinhos.
Um carneirinho, dois carneirinhos, três, quatro…

Cento e vinte sete…
Perco a conta.
Desisto.

Olho para o teto.
Olho a hora. Dez e quarenta.
Ainda é cedo. Não é hora de dormir.

Por isso não consigo.
Volto para o sofá.
Procuro o controle.
Ligo a TV.

Uma cobra faminta observa um suculento sapo no Discovery.
No Cartoon, um desenho da minha infância.
Um carro explode no AXN e  continuo sem conseguir pegar no sono.

Mudo, mudo e mudo de novo.
O tempo não passa. O sono não vem.

Banho quente para relaxar.
Volto para a sala.
Um filme de suspense no 43
Um crime, muitos suspeitos.
Quem será o assassino?

Fico tenso.
Esqueço o sono. Não quero mais dormir.

Agora quero desvendar o mistério.
Mais mortes, mais tensão.
Tenho um palpite.
Meu suspeito morre.
E agora? Quem é o assassino?
O final se aproxima.
Fecho olho.
Abro E não há mais suspense.
Não há mais filme.
Quem matava? Não sei.
Adormeci.
Agora, sem assassino e sem sono.

Uma hora. Hora de criança estar dormindo.
Não sou mais criança.

Continuo acordado.

No Sportv tem futebol.
O jogo é ruim. Já sei o resultado.
No 60, assisto pôquer.
O barbudo blefa e ganha.
No Shoptime vende-se de tudo.
Tudo é caro.
No 22, vendem-se tapetes.
Quem compra um tapete compra demais.

Os canais passam, mas o tempo custa a passar.
A posição no sofá incomoda.
Já estou deitado.
Chamo o sono. Ele finge que não ouve.
A MTV recomenda um livro.
Não aceito a recomendação.

NET Digital. 24 horas no ar.
O 17 informa a hora, duas e meia.
No 62 não há mais tiros nem sangue.
Na HBO, um filme engraçado, mas não estou com vontade de rir.
Procuro seriados. Eles já vem com risadas embutidas.
Assim, eu economizo as minhas.

No 63, ele se declara e ela aceita.
O amor é lindo.
Bem que a vida poderia imitar a arte.
Não imita.
Penso nela.
O que deve estar fazendo?
Provavelmente dormindo.

Sonhando com os anjos.
Comigo também?
Acho que não.

A vida é dura.

Então eu mudo, e mudo de novo.
Meg Ryan e Nicolas Cage aparecem na tela.
Eles estão felizes.
A felicidade dura pouco.
Ele fica triste. Eu também.

E de repente estou na rua.
Não passa carros nem pessoas.
Estou só.
Um vulto se aproxima.
Ele diz algo.
Eu não entendo.
Ele aponta uma arma e eu não compreendo.
Então atira.
Me sinto quente.
Tudo fica escuro.

Então acordo.
Foi um sonho, um pesadelo.
A TV está ligada.
Enfim consegui dormir.

A partir da meia-noite do próximo sábado, 15, as tarifas de ônibus subirão de R$2 para R$2,10. Esse aumento de 5% foi autorizado pelo prefeito Cesar Maia.

Anualmente as tarifas dos ônibus sobem, mas raramente a explicação é concreta. Não houve aumento no preço do combustível, os salários dos rodoviários não sofreram reajuste, as estradas continuam ruins e alguns ônibus continuam circulando em péssimas condições.

Flávia Cristina, atendente de Telemarketing, acha um absurdo “o ônibus demora meia hora pra chegar, vem super lotado e muitas vezes enguiça no caminho, isso é revoltante”. Sérgio Cabral, em campanha, prometeu reduzir as tarifas de ônibus e instalar gás em toda a frota, o que baratearia os custos para a população. Mas na campanha política vale tudo.

 Até prometer reduzir o preço de alguma coisa.

Você acreditou? Nem eu.

Por Bruno Duarte

“Quanto mais francos nós formos, menos medo vamos ter, porque não haverá nenhuma ansiedade quanto à possibilidade de sermos desmascarados ou expostos aos outros. Quanto mais honestos nós formos, mais autoconfiança teremos”
- Tenzin Gyatso, o Dalai Lama.

Muita gente se propõe a falar sobre muita coisa. Eu sugerira  aos que levam suas idiossincrasias a cabo deixassem de insuflar seu público em potencial de esperanças vãs, para que estes depois constatem o inevitável: não era nada disso que ele estava esperando.

Sim, porque no curso de comunicação a primeira coisa que se ensina é [que coisa não quer dizer coisa nenhuma e eu deveria retirar essa palavra do meu texto] da arte de inventar bons títulos e descer um lead – vide minhas colegas do D1C que não me deixam mentir.

E não se trata de radicalismo. Estou apenas sendo honesto. O que não passa de uma defesa de minha parte para o sentimento de perda da autoconfiança proveniente do seu desapontamento depois de você se debruçar na janela do meu texto e não conseguir se inserir em minha paisagem.

Então prefiro que venha até aqui buscando um momento de prazer, e não um bife de vocabulário e um pouco de cultura inútil, para tornar mais aprazíveis suas conversas de mesa de bar, a fim de demonstrar que a faculdade está servindo realmente para alguma coisa na sua vida.

Ser honesto é a única forma de não decepcionar os outros e a você mesmo. Me proponho a falar sobre nada para poder dizer um pouco de tudo.

Eu deveria estar iniciando aqui minha carreira bloguística, já tenho várias idéias e meia dúzia de assuntos inusitados, o problema era saber por onde começar. Quer ponto de partida melhor do que o nada? Coisa alguma pode surgir  do nada, mas terminar.

Depois de décadas de esquecimento, finalmente a zona oeste do Rio de janeiro está recebendo obras de saneamento básico. Financiado com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal, o saneamento integrado da Bacia de Sepetiba vai beneficiar oito mil famílias. A população enxerga nos buracos abertos nas ruas uma melhora na qualidade de vida.

O programa prevê esgotamento sanitário, drenagem de águas pluviais e urbanização local, com pavimentação, asfaltamento e arborização. As obras, orçada em R$ 8.961.235,34, são de responsabilidade da Rio-Águas, e começaram no início de novembro. O prazo para o término é de 240 dias, o que corresponde a aproximadamente oito meses, próximo as eleições municipais de 2008.

No bairro de Sepetiba, os canteiros de obra já estão mudando a rotina dos moradores. As principais vias, como  a Rua José Jernandes e a Estrada São Tarcísio, modificaram o fluxo de trânsito local. Mas isto não é problema para Iolanda Domingues São Thiago, aposentada de 79 anos e moradora há 40 do bairro. Para ela todos os transtornos são bem-vindos em prol da melhora na infraestrutura.  “Eu estou achando tudo isso ótimo. Há 40 anos atrás isto aqui era só brejo, não tinha água nem luz. A gente tinha que correr, literalmente, dos mosquitos. Com as obras o comércio vai voltar a funcionar como há 20 anos, e o bairro vai ficar mais bonito”, disse.

“Você é negra, mas você é bonita” (funcionário de alta hierarquia do shopping da Gávea). Assim que ele recepcionou uma candidata a uma vaga de guarda-volumes do shopping.

Quando o fim do ano se aproxima, muitas lojas procuram mão-de-obra extra para suprir a demanda, já que nessa época os shoppings ficam lotados de pessoas à procura de presentes e artigos de Natal.  

A maioria dos candidatos a essas vagas extras são jovens que querem garantir uma renda a mais para as férias. O trabalho é árduo, mas também é uma possibilidade de ganhar experiência e conhecer gente nova.  

Com essa mesma finalidade, saímos Bibiana – uma das colaboradoras do desce1lead! – e eu à procura de uma vaga. Imprimimos muitos currículos e fomos à luta. Começamos pelo Shopping da Gávea e depois partimos para o Rio Sul.  

Horas andando, muitos “já fechamos o quadro de funcionários”, uma entrevista escusa e propostas muito indecentes.  

Primeiro entrave: quase impossível alguma loja aceitar currículo sem foto. “Debora, como eu vou saber quem é você se seu currículo não tem foto?” Ou seja, o que está no currículo não importa. Porque então eles não pedem só foto com telefone? Mais fácil e menos trabalhoso. 

Segundo entrave: as lojas mais populares não querem “populares” trabalhando para elas. Não fomos bem recebidas.

 Terceiro entrave: alguns lugares ofereciam trabalhos semi-escravos. “Olha, você vai trabalhar 10 horas por dia, com uma hora de almoço. Não tem folga, não pagamos passagens, tem que trabalhar de salto alto e usar as roupas da loja, claro que você vai precisar comprar essas roupas. O salário é 450 reais e não tem comissão”. Pior é saber que tem gente que precisa se submeter a isso. Triste, muito triste. Um tanto opressor também. 

A opressão sempre existiu e, na maioria das vezes, se expressa contra as minorias. Oprime-se por tudo: tem que assistir à novela, alisar o cabelo, ter mais de 300 amigos no Orkut, ser loira e magra, senão você está fora! A frase dita pelo funcionário do shopping da Gávea é um retrato disso. Parece que não dá pra ser negra e bonita. Não nesse mundo. 

Soluções para esse problemas são meras utopias. Não há democracia nem liberdade que superem a opressão.  

Nenhuma loja me ligou até hoje.