O fim de ano é a época em que todos as pessoas se tornam legais. Seu chefe te dá uma lembrancinha, seus inimigos mandam cartões de natal e as grandes emissoras colocam artistas catando musiquinhas grudentas em um só coro.
Pausa. Este texto tem um caráter pessoal, e não quero que pensem que existe aqui a tão polêmica imparcialidade jornalística.
Voltando. É uma época em que a alegria reina, mesmo que seu vizinho esteja espancando a mulher e você escute.
Neste clima de extrema felicidade e esperança, milhares de pessoas trabalharam em busca de uma grana extra, ou de um emprego que poderia se tornar fixo. Eu fui uma delas. Me vendi ao sistema para conseguir um capital para viajar nas férias, e o que vivi foi algo parecido com a senzala, se me permitem o drama.
Fui auxiliar de loja. Mas…o que diabos é isto? É um funcionário faz-tudo que tem um nome bonito. Eu arrumava araras, dobrava roupas e até varri o chão. E a jornada de trabalho? De 10h às 10h, se eu não tivesse reclamado e chegado atrasada quase todos os dias. E almoço? Me tornei a típíca trabalhadora brasileira que leva quentinha na bolsa. No máximo tinha um microondas, uma geladeira, água e uma hora pra comer tudo e sentar um pouco. Isso mesmo, sentar, porque o dia inteiro eu ficava em pé.
Não trabalhei no interior, foi na área metropolitana mesmo, em uma rede de lojas de roupa feminina bem conhecida. Presente nas zona norte, oeste e sul da cidade. E todo o tipo de gente e bolso comprava lá.
Certo dia escutei na rádio CBN, enquanto ia para o “emprego”, que o Ministério do Trabalho tinha proibido as maratonas de 24h de shoppings abertos para que não ocorresse a corrida por comissões a exploração desenfreada. Eu dei uma gargalhada e as pessoas do metrô me encararam como se eu fosse louca, dá para acreditar? Loucos, ou incompetentes, são estes fiscais do Ministério do Trabalho que não fazem o mínimo de esforço de passear pelo comércio em dezembro. Porque é mais fácil acreditar em papai noel do que achar que os patrões pagam hora extra e respeitam as leis trabalhistas.
E viva a escravidão permanente de quem tem que trabalhar muito para ganhar pouco.
