“Você é negra, mas você é bonita” (funcionário de alta hierarquia do shopping da Gávea). Assim que ele recepcionou uma candidata a uma vaga de guarda-volumes do shopping.
Quando o fim do ano se aproxima, muitas lojas procuram mão-de-obra extra para suprir a demanda, já que nessa época os shoppings ficam lotados de pessoas à procura de presentes e artigos de Natal.
A maioria dos candidatos a essas vagas extras são jovens que querem garantir uma renda a mais para as férias. O trabalho é árduo, mas também é uma possibilidade de ganhar experiência e conhecer gente nova.
Com essa mesma finalidade, saímos Bibiana – uma das colaboradoras do desce1lead! – e eu à procura de uma vaga. Imprimimos muitos currículos e fomos à luta. Começamos pelo Shopping da Gávea e depois partimos para o Rio Sul.
Horas andando, muitos “já fechamos o quadro de funcionários”, uma entrevista escusa e propostas muito indecentes.
Primeiro entrave: quase impossível alguma loja aceitar currículo sem foto. “Debora, como eu vou saber quem é você se seu currículo não tem foto?” Ou seja, o que está no currículo não importa. Porque então eles não pedem só foto com telefone? Mais fácil e menos trabalhoso.
Segundo entrave: as lojas mais populares não querem “populares” trabalhando para elas. Não fomos bem recebidas.
Terceiro entrave: alguns lugares ofereciam trabalhos semi-escravos. “Olha, você vai trabalhar 10 horas por dia, com uma hora de almoço. Não tem folga, não pagamos passagens, tem que trabalhar de salto alto e usar as roupas da loja, claro que você vai precisar comprar essas roupas. O salário é 450 reais e não tem comissão”. Pior é saber que tem gente que precisa se submeter a isso. Triste, muito triste. Um tanto opressor também.
A opressão sempre existiu e, na maioria das vezes, se expressa contra as minorias. Oprime-se por tudo: tem que assistir à novela, alisar o cabelo, ter mais de 300 amigos no Orkut, ser loira e magra, senão você está fora! A frase dita pelo funcionário do shopping da Gávea é um retrato disso. Parece que não dá pra ser negra e bonita. Não nesse mundo.
Soluções para esse problemas são meras utopias. Não há democracia nem liberdade que superem a opressão.
Nenhuma loja me ligou até hoje.
Dezembro 6, 2007 at 9:35 am
Só para frisar o que aconteceu nestas andanças em busca de um emprego temporário, eu consegui colocar vários currículos só porque tinha uma foto mal tirada em preto e branco.
Além disso, recebi diversas ligações para propostas de emprego.
Quem diz que o Brasil não é mais um pais racista deveria examinar bem essa premissa. Sou magra, “branca”, tenho os cabelos longos e lisos, e estudo na PUC. Para eles eu quase me encaixo no esteriótipo destas Barbies, só faltava usar roupas de marca.
Se o currículo interessa? Ás vezes, mas quem está mais próxima desse modelo “Gisele Bündchen” é que tem mais chance. Se a gente se parece com a empregada da novela, para eles é melhor se enterrar no subúrbio e não sair mais de lá.
Opressão é a palavra de ordem.
Dezembro 7, 2007 at 11:09 pm
Esta frase “Você é negro(a) mas é bonito(a)” é mais corriqueira do que parece. É o Brasil camuflando o preconceito de forma “educada”. A sociedade tenta “justificar” o preconceito dizendo que “aqui não somos radicais como nos EUA”. Claro que não! Temos até negros fazendo comerciais de tv, não é? Então…
Sem mais delongas,é muita hipocrisia…
Dezembro 10, 2007 at 8:14 pm
Vivemos em um país de desencontros e de infelizes coincidências, onde a democracia é medida não só pela cor da pele, mas também, pela cor dos cartões que possuímos na carteira.
Nossa sociedade preza muito pela cor dourada (????)…, sim…, dourada, quanto mais dourados forem os nossos cartões, mais bem quisto, mais bem tratado e mais bonita seremos. Assim falou o rei com a sua coroa dourada ( tenho que parar de ouvir Fred 04 do Mundo Livre S.A.).
Bricadeiras, citações e piadas à parte, somos simplesmente o quanto carregamos em nossas carteiras, vivemos em uma sociedade falida, de forma financeira e moral.
Os orgãos de informações dão destaque a fatos que são realmente importantes, mas que ainda não cabem tal alarde, como por exemplo o episódio de desrespeito a torcida do Flamengo com as latinhas de leite Ninho, temos que alardear que precisamos de respeito na saúde, na educação, no transporte, no trabalho e na justiça antes de tal episódio.
Somos tratados como animais sem SUIPA para nos defender.
Nossos governantes deveriam experimentar um dia pegar um onibus lotado da Zona Oeste para o Centro às 6:00 horas da manhã para trabalhar. (Poxa, poderíamos fazer essa campanha pela internet, né?)
Enquanto não houver dignidade e respeito, teremos ainda casos como os do menino João Hélio (alguém lembra??) do menino Huguinho ou casos que a cor da pele seja um fator determinante para a busca de uma vida mais digna.
Voltando a questão das cores… pergunto, se virarmos todos pelo avesso não seremos da mesma cor????
A respeito da campanha, minha sogra gritaria: “- ALLLLOOOOUUUU César Maia, pegue o S-14 de Bangu a o centro as 6 da manhã.”
Beijos meninas