Por Diogo Cavalcanti
Dez horas da noite. Estou cansado. Não tenho vontade de dormir.
Tento a TV.
Tiros e sangue no 62.
Um sucesso de bilheteria no 61.
Um clássico de Fellini no Cult.
Na TNT, um filme que eu já vi.
Na Fox, um filme que não quero ver.
No Multishow tem música.
Na MTV também.
Não vejo novela na Globo, também não vou ver na Record.
Pra mim já chega.
Vou dormir.
Um copo de leite com Nescau e alguns biscoitos.
Escovo os dentes, arrumo a cama.
Estou pronto.
Deito e fecho os olhos.
Espero um pouco.
Um pouco mais.
O sono não vem.
Conto carneirinhos.
Um carneirinho, dois carneirinhos, três, quatro…
Cento e vinte sete…
Perco a conta.
Desisto.
Olho para o teto.
Olho a hora. Dez e quarenta.
Ainda é cedo. Não é hora de dormir.
Por isso não consigo.
Volto para o sofá.
Procuro o controle.
Ligo a TV.
Uma cobra faminta observa um suculento sapo no Discovery.
No Cartoon, um desenho da minha infância.
Um carro explode no AXN e continuo sem conseguir pegar no sono.
Mudo, mudo e mudo de novo.
O tempo não passa. O sono não vem.
Banho quente para relaxar.
Volto para a sala.
Um filme de suspense no 43
Um crime, muitos suspeitos.
Quem será o assassino?
Fico tenso.
Esqueço o sono. Não quero mais dormir.
Agora quero desvendar o mistério.
Mais mortes, mais tensão.
Tenho um palpite.
Meu suspeito morre.
E agora? Quem é o assassino?
O final se aproxima.
Fecho olho.
Abro E não há mais suspense.
Não há mais filme.
Quem matava? Não sei.
Adormeci.
Agora, sem assassino e sem sono.
Uma hora. Hora de criança estar dormindo.
Não sou mais criança.
Continuo acordado.
No Sportv tem futebol.
O jogo é ruim. Já sei o resultado.
No 60, assisto pôquer.
O barbudo blefa e ganha.
No Shoptime vende-se de tudo.
Tudo é caro.
No 22, vendem-se tapetes.
Quem compra um tapete compra demais.
Os canais passam, mas o tempo custa a passar.
A posição no sofá incomoda.
Já estou deitado.
Chamo o sono. Ele finge que não ouve.
A MTV recomenda um livro.
Não aceito a recomendação.
NET Digital. 24 horas no ar.
O 17 informa a hora, duas e meia.
No 62 não há mais tiros nem sangue.
Na HBO, um filme engraçado, mas não estou com vontade de rir.
Procuro seriados. Eles já vem com risadas embutidas.
Assim, eu economizo as minhas.
No 63, ele se declara e ela aceita.
O amor é lindo.
Bem que a vida poderia imitar a arte.
Não imita.
Penso nela.
O que deve estar fazendo?
Provavelmente dormindo.
Sonhando com os anjos.
Comigo também?
Acho que não.
A vida é dura.
Então eu mudo, e mudo de novo.
Meg Ryan e Nicolas Cage aparecem na tela.
Eles estão felizes.
A felicidade dura pouco.
Ele fica triste. Eu também.
E de repente estou na rua.
Não passa carros nem pessoas.
Estou só.
Um vulto se aproxima.
Ele diz algo.
Eu não entendo.
Ele aponta uma arma e eu não compreendo.
Então atira.
Me sinto quente.
Tudo fica escuro.
Então acordo.
Foi um sonho, um pesadelo.
A TV está ligada.
Enfim consegui dormir.
Dezembro 17, 2007 at 12:32 pm
Mt bom, Flu!!! Parabéns!!!
Dezembro 17, 2007 at 7:31 pm
éee querido…. convidado?
ja conhecia o texto e nao é por isso q ele nao continua bom.
escreva… escreva com insonia, com amor, com medo.
um beijo
Dezembro 22, 2007 at 8:12 pm
Sei bem como é a madrugada.
Além disso ela sempre(ou quase sempre), nos traz inspiração!
Grande ABraço e o texto tá uma maravilha!