“A vida não me vem pelos jornais nem pelos livro
Vinha da boca do povo
na língua errada do povo
Língua certa do povo
Por que ele é que fala gostoso o Português do Brasil”
(“Evocação do Recife” Manuel Bandeira)
[Baseado em fatos reais] Guilherme dos Santos Junior 01/12/2007
Ainda me lembro como se fosse hoje… Naquela ensolarada manhã de quarta-feira do dia sete de novembro desse ano. Era o meu dia D. O dia que mudaria a minha história. Antes dele eu era apenas um alguém vivendo entre faculdade, trabalho e casa. Depois, eu iria mudar meu mundinho. Estava prestes a sair da minha bucólica vida para morar fora do país com o propósito de estudar e trabalhar fora por apenas quatro meses, mas tempo o suficiente para realizar esse desejo. Tudo de maneira legal, sem precisar me esconder ou contar historinhas tristes para alguém com o propósito de me aceitarem clandestinamente. Estava muito entusiasmado com a possibilidade de poder conhecer outras culturas, onde as oportunidades de crescimento eram absolutamente impensáveis. Entretanto, a escolha do país não tenha sido muito feliz, Estados Unidos.
Esse era o destino que queria ter nas minhas férias de verão, hoje em dia o inglês é um idioma que te dá status e quando se estuda em seu país de origem é ainda melhor, porém, havia um obstáculo que estava bem a minha frente. Através dele que saberia se eu iria realizar esse desejo ou não, o tão temido consulado. Levei todos os documentos necessários. Fui com minha melhor roupa descartando um simples detalhe de ter chegado alguns míseros minutos atrasados. O que não influenciou na entrevista para a obtenção do visto.
Eis que o dia D estava apenas começando e me propondo um futuro promissor. Sabia que a entrevista era feita com um nativo e que não falava português. Até aí tudo bem. Até porque tinha investido minhas economias pagando uma professora particular de inglês só para eu não dar bobeira na hora da entrevista. A imagem que eu tinha dos entrevistadores era a que eu já tinha ouvido em lendas que circulam o tenebroso prédio da embaixada americana. Iria ser entrevistado por uma pessoa antipática na certa! Pois bem, me preparei dias antes e estava contando com todas as ajudas possíveis. Desde patuá até mandingas que os feiticeiros do candomblé dizem dar certo.
É chegada à hora, peguei minha senha, sentei na cadeira de espera em frente ao painel que me informaria para qual guichê teria que me direcionar e então ter a tão esperada entrevista. Chegando ao guichê, me deparei com o tal velho, ou melhor, a tal velha rabugenta que tanto falavam. Era daquele jeito que todos diziam, testa enrugada, bochecha enrubescida, cabelos grisalhos e nada, mas nada simpática e, para completar, era extremamente impaciente. Eu achava que o fato de ser entrevistado por uma mulher, seja em uma entrevista para emprego ou algo além, tudo se tornaria mais leve e confortável. A mulher sempre teve a delicadeza como personalidade principal dentre várias outras qualidades daquelas que confortam os homens mais aflitos nos momentos mais nervosos. Que nada! Com essa senhora, era diferente. A mulher era a rispidez em pessoa, “o cão chupando manga”. Ali, deixei de acreditar nos mitos que faziam sobre os americanos e passei ter certeza que tudo era verídico. São um bando de antipáticos prepotentes que se acham estar acima de tudo e de todos.
Logo que eu entrei, ela mandou colocar “my rigth finger” num aparelho eletrônico para deixar minha impressão digital do dedo polegar direito. Inquieta, me mandou trocar a mão e por o polegar esquerdo no aparelhinho. Era uma espécie de ritual de identificação, o começo de um julgamento onde você é julgado por um crime que não cometera. Foi tudo o que entendi até então. A senhora americana de cabelos alvos estava preste a me metralhar com perguntas ultracabeludas atenta em encontrar uma brecha onde pudesse descobrir uma maneira de negar meu visto.
E em cinco minutos vi meu sonho se desfazendo como uma montanha de dunas em plena tempestade de areia. Não entendia bulhufas que aquela velha antipática dizia, nem ela o que eu falava. Ela fazia gestos, eu respondia mostrando documentos. Quando não entendia o que eu estava querendo falar, me interrompia me deixando irritado e partia para uma nova e complexa pergunta. A entrevista parecia mais uma aula de expressão corporal.
Eu gesticulando daqui, ela respondendo de lá, entretanto não havia sincronia. A entrevistadora me lançava uns olhares gélidos enquanto observava meus documentos já me condenando a permanecer por aqui.
Veredicto final: “Your visa was denied!” Naquele momento pigarreei com intuito de engolir a saliva que teimava em me incomodar. Percebi ali, que o pigarro não tiraria meu incomodo e como já estava prevendo, foi tudo por água abaixo. Um projeto de anos se desintegrando em poucos minutos. O mundo caiu sobre minha cabeça. Tinha sensação de ter recebido de um médico urologista a notícia que um câncer de próstata, descoberto há pouco tempo, tenha retalhado as minhas possibilidades de viver nada mais que dois meses. Tudo por água abaixo. Fui condenado a viver em uma prisão sem grades em solo brasileiro de onde não poderia tentar outro visto nos próximos seis meses.
Erro de comunicação? Deveria ter me expressado melhor? Literalmente falando, perdi o visto por“ não falarmos a mesma língua.”
Dezembro 26, 2007 at 4:24 am
Sei que foi duro pra você Guilherme. Mas pense pelo lado positivo, encare como uma segunda chance que o Brasil está lhe dando de fazer algo por aqui mesmo, algo que valha a pena. Tudo tem seu tempo, sua hora vai chegar.
E além do mais, vou passar o reveillon do seu lado
Gostei do texto.
Beijo – Keka —-
Debora, safada da PUC. Te amo!