Setembro de 1969, auge da ditadura militar, o telefone da mesa de Fernando Gabeira na redação do Jornal do Brasil começa a tocar. Bartolomeu Brito atende, uma vez que Gabeira, pauteiro do jornal, está desaparecido há dias. Do outro lado da linha, uma voz cavernosa diz: “Nós somos do comando que sequestrou o embaixador americano Charles Burke Elbrick. Temos uma lista com os nomes dos presos políticos que devem ser soltos em troca da liberdade do embaixador. Ela vai estar em cima da caixa de descarga do banheiro de um bar na esquina das ruas Francisco Sá e Nossa Senhora de Copacabana.” Continua…
Dia 8 de abril de 2009, uma movimentação estranha na cantina do prédio do jornal O Dia denuncia o aniversário de um funcionário. Enquanto isso, na redação, Bartolomeu Brito, um homenzinho de 1,55 metro de altura, faz tentativas frustradas de fugir. Um dos repórteres de polícia mais antigos do Rio de Janeiro, Bartô, como é mais conhecido, fazia 67 anos, mas o jovem senhor não gosta de comemorações. “Odeio ser agarrado. Sou tímido e não quero chegar aos 70 anos com uma bengala na mão, brinca.
A timidez, no entanto, vai embora quando ele precisa enumerar os furos de reportagem pelos quais foi responsável durante seus 47 anos de profissão. Repórter do Jornal do Brasil por 23 anos, Bartô denunciou, com exclusividade, a explosão num quartel de munição do Exército, em Paracambi, em 1969. Pautado para cobrir o acidente, Bartolomeu foi de helicóptero, para impedir que o Exército barrasse o carro de reportagem. Sobrevoando o local, ele percebeu que os militares acenavam para que a aeronave pousasse. Imaginando que seria preso, Bartô desceu do helicóptero, mas, para sua surpresa, o oficial bateu continência e disse que o aguardava. O homem baixinho, vestindo terno e gravata, estranhou ser esperado para cobrir o acidente, já que a censura à imprensa era forte naquele momento. Sem parar de fazer perguntas, Bartô acabou se denunciando. “O senhor não é o general que vem vistoriar o armamento?”, perguntou o militar. “Não, sou Bartolomeu Brito, repórter do Jornal do Brasil”, respondeu.
Abusado, foi essa palavra que o oficial usou para qualificá-lo. Expulso do lugar, Bartô foi levado de volta para o helicóptero. O sargento que o acompanhou, porém, não gostava do oficial e contou ao repórter os detalhes do acidente. No dia seguinte, a manchete do Jornal do Brasil denunciava a morte de 19 soldados após a explosão. Bartô é visto por muitos colegas como um ícone. Amigo do jornalista há 20 anos, o assistente de redação Jorge Delgado destaca o faro investigativo de Bartô, numa época em que não havia internet para ajudar na apuração. “Ele é o verdadeiro repórter. Ele ia para a rua fazer o trabalho da polícia, investigando realmente os crimes”, conta.
Repórter recém-chegada no jornal O Dia, Bruna Capistrano se impressionou com a história de Bartô. “Ele é uma caricatura: baixinho, simpático, tenta se adequar aos novos tempos, mas guarda resquícios do jornalismo romântico”, afirma. Desde jovem, a paixão de Bartolomeu pela reportagem era aparente. Trabalhando como contínuo no jornal A Noite, ele tentava acompanhar a rotina da redação. Seu interesse, logo, lhe rendeu o convite para fazer um teste e trabalhar na apuração. Ele, é claro, passou na hora. A partir daí, o repórter fez parte do quadro de funcionários do Diário de Notícias, da Gazeta de Notícias e da Rede Manchete, entre outros.
Em 1967, trabalhando na Luta Democrática, Bartô deu mais um de seus furos. Ao saber de um corpo encontrado na Baía de Guanabara, o repórter ignorou as piadas de que cobriria a morte de um afogado e foi para o local. Quando se deparou com o morto, Bartô viu um homem alto e bem vestido. A teoria de que ele teria caído da barca não convenceu o repórter, que começou a revistar o corpo. Nesse momento, Bartô encontrou uma carta de recomendação assinada por Hitler dentro da cueca do espião nazista. Depois de uma investigação, descobriu-se que o alemão foi morto por um grupo de judeus. “Os caçadores de nazistas jogaram o alemão na água e ele acabou morrendo afogado. Mas as correntes marítimas trouxeram o corpo para a Baía de Guanabara e ele caiu nas mãos de Bartolomeu Brito”, orgulha-se
Continuando… Bartô chega ao local indicado pelos sequestradores do embaixador. Ao tentar abrir a porta do banheiro, ele percebe que está ocupado. Batendo insistentemente, o repórter convence o homem a abrir a porta, mas devido a sua baixa estatura, não consegue resgatar a carta de cima da caixa de descarga. Quando vai pedir ajuda ao homem ao seu lado, percebe que ele é um informante do Departamento de Ordem Política e Social – Dops. Para evitar a prisão, Bartô inventa que o documento é uma carta de suicídio de sua namorada. O homem acredita e ajuda o repórter a resgatar o papel. De posse da lista com os nomes dos presos políticos, Bartô volta à redação, onde é aplaudido por todos.
Maio 14, 2009 at 7:57 pm
Depois de escrever assim e tirar 10 no Dapieve você ainda quer desistir de jornalismo? Faça-me o favor, né? Uma reportagem que dá gosto de ler até o final. Aliás, que final!!!
Nada contra a pedagogia. Tudo bem que as criançinhas ganhariam tendo você como professora, mas… pense em todas as pessoas que precisam ler boas reportagens, bem escritas e apuradas rs
Maio 14, 2009 at 8:57 pm
Que loucura essa história do Bartô!
Maio 14, 2009 at 9:18 pm
Depois de ler esse texto, tenho certeza de que a educação no Brasil vai melhorar muito daqui a alguns anos, hahaha.
Maio 15, 2009 at 8:38 am
Ótima matéria!!!
Concordo com a Fabi, e acho que vc tem que repensar sua decisão!
Junho 4, 2009 at 8:14 pm
Adorei o texto, parabéns. O Bartô é realmente uma figura e tanto, um repórter excelente mas ‘na dele’, sem a arrogância de outros…