Convidados


 Por Guilherme Alt

Tricolores do céu e da Terra, como já dizia o sábio, a humildade acaba aqui.

Não sou simplesmente um torcedor fanático, mas um amante. Sim, amante, no real sentido da palavra. Aquele que ama. Amor a quem? Amor ao quê?

Existem várias formas de amar, existem vários tipos de amores, mas todos acabam se convertendo ao mesmo conceito.

O meu amor tem um nome, Fluminense.

Aos olhos de um leigo seria o cúmulo da futilidade. Por que se importar com um time, um clube, ou qualquer outra coisa que não seja você mesmo? Mas para aqueles que amam, não importa o que seja, tudo volta para si. Portanto o meu amor pelo Fluminense representa parte de mim, e por isso, deixa de ser futilidade.

Uma paixão de três cores que há quase 21 anos me fascina pela sua disciplina. É assim desde o dia 17 de março de 1987, quando meu pai já havia traçado o destino que só viria compreender anos depois. Estava destinado a um casamento onde o divórcio não existe. Cresci unido e forte acompanhando atentamente desde pequeno, sem entender ainda a magia que o futebol trazia consigo.

Apenas com 8 anos de idade pude perceber o que era ser Fluminense, o que era pertencer a este seleto e privilegiado grupo de tricolores legítimos e não os similares que vieram a copiar este titulo mais tarde. Seleto sim, porque não é qualquer um que pode compreender a grandeza do clube.

No dia 25 de junho de 1995, o duelo mais importante do futebol mundial, Fla x Flu, seria travado no templo do futebol, o Maracanã. Um palco perfeito para reverenciar o espetáculo da final do Campeonato Carioca, mais charmoso do Brasil.

Lembro-me de acompanhar a partida por um radinho à pilha no condomínio onde morava, em Nova Friburgo. Ao redor dele estava eu, minha irmã, e mais dois amigos. Eu e minha irmã representávamos a torcida do Fluminense e os outros dois a parte indesejada do time Que-Não-Deve-Ser-Nomeado.

O primeiro tempo nos deu uma amostra do que estaria por vir no final, um jogo pegado, com jogadas violentas e com dois gols de vantagem sobre nosso rival. Inexplicavelmente a pilha acabara logo depois do término da primeira etapa, eu estava feliz, mas ao mesmo tempo nervoso. Corremos para dentro de casa a procura de outro radio que pudesse nos acalmar. Mas não achamos nenhum.

A cada minuto sem saber uma noticia do jogo eu entrava em desespero, tinha ouvido 2 gritos de euforia e sabia que não eram de aliados. Veio a noticia que eu não queria ouvir, a partida estava empatada em 2 x 2, estávamos no final do jogo, o resultado só nos daria lamentos e lágrimas.

Foi ai que o sobrenatural se mostrou em verde, grená e branco. Em uma das cenas que jamais esquecerei na minha vida, meu pai enrolado em uma toalha de banho pulava em seu quarto gritado, Fluminense é Campeão. A barriga de Renato Gaúcho condenou o Fluminense à Gloria Eterna. Quando as 109.204 pessoas no Maracanã e todas as outras se lembrarem deste dia dirão: Ah… Aquele Fla x Flu.

No maior Fla x Flu de todos os tempos, vivos e mortos comemoraram, saindo de suas casas e tumbas. Com a benção de João de Deus o Flamengo virou pó… de arroz. Finalmente havia compreendido o verdadeiro valor de ser Fluminense.

“A vida não me vem pelos jornais nem pelos livro
Vinha da boca do povo
na língua errada do povo
Língua certa do povo
Por que ele é que fala gostoso o Português do Brasil”

(“Evocação do Recife” Manuel Bandeira) 

 [Baseado em fatos reais] Guilherme dos Santos Junior 01/12/2007 

Ainda me lembro como se fosse hoje… Naquela ensolarada manhã de quarta-feira do dia sete de novembro desse ano. Era o meu dia D. O dia que mudaria a minha história. Antes dele eu era apenas um alguém vivendo entre faculdade, trabalho e casa. Depois, eu iria mudar meu mundinho. Estava prestes a sair da minha bucólica vida para morar fora do país com o propósito de estudar e trabalhar fora por apenas quatro meses, mas tempo o suficiente para realizar esse desejo. Tudo de maneira legal, sem precisar me esconder ou contar historinhas tristes para alguém com o propósito de me aceitarem clandestinamente. Estava muito entusiasmado com a possibilidade de poder conhecer outras culturas, onde as oportunidades de crescimento eram absolutamente impensáveis. Entretanto, a escolha do país não tenha sido muito feliz, Estados Unidos. 

Esse era o destino que queria ter nas minhas férias de verão, hoje em dia o inglês é um idioma que te dá status e quando se estuda em seu país de origem é ainda melhor, porém, havia um obstáculo que estava bem a minha frente. Através dele que saberia se eu iria realizar esse desejo ou não, o tão temido consulado. Levei todos os documentos necessários. Fui com minha melhor roupa descartando um simples detalhe de ter chegado alguns míseros minutos atrasados. O que não influenciou na entrevista para a obtenção do visto.

Eis que o dia D estava apenas começando e me propondo um futuro promissor. Sabia que a entrevista era feita com um nativo e que não falava português. Até aí tudo bem. Até porque tinha investido minhas economias pagando uma professora particular de inglês só para eu não dar bobeira na hora da entrevista. A imagem que eu tinha dos entrevistadores era a que eu já tinha ouvido em lendas que circulam o tenebroso prédio da embaixada americana. Iria ser entrevistado por uma pessoa antipática na certa! Pois bem, me preparei dias antes e estava contando com todas as ajudas possíveis. Desde patuá até mandingas que os feiticeiros do candomblé dizem dar certo.

É chegada à hora, peguei minha senha, sentei na cadeira de espera em frente ao painel que me informaria para qual guichê teria que me direcionar e então ter a tão esperada entrevista. Chegando ao guichê, me deparei com o tal velho, ou melhor, a tal velha rabugenta que tanto falavam. Era daquele jeito que todos diziam, testa enrugada, bochecha enrubescida, cabelos grisalhos e nada, mas nada simpática e, para completar, era extremamente impaciente. Eu achava que o fato de ser entrevistado por uma mulher, seja em uma entrevista para emprego ou algo além, tudo se tornaria mais leve e confortável.  A mulher sempre teve a delicadeza como personalidade principal dentre várias outras qualidades daquelas que confortam os homens mais aflitos nos momentos mais nervosos. Que nada!  Com essa senhora, era diferente. A mulher era a rispidez em pessoa, “o cão chupando manga”. Ali, deixei de acreditar nos mitos que faziam sobre os americanos e passei ter certeza que tudo era verídico. São um bando de antipáticos prepotentes que se acham estar acima de tudo e de todos.

Logo que eu entrei, ela mandou colocar “my rigth finger” num aparelho eletrônico para deixar minha impressão digital do dedo polegar direito. Inquieta, me mandou trocar a mão e por o polegar esquerdo no aparelhinho. Era uma espécie de ritual de identificação, o começo de um julgamento onde você é julgado por um crime que não cometera. Foi tudo o que entendi até então. A senhora americana de cabelos alvos estava preste a me metralhar com perguntas ultracabeludas atenta em encontrar uma brecha onde pudesse descobrir uma maneira de negar meu visto.

E em cinco minutos vi meu sonho se desfazendo como uma montanha de dunas em plena tempestade de areia. Não entendia bulhufas que aquela velha antipática dizia, nem ela o que eu falava. Ela fazia gestos, eu respondia mostrando documentos. Quando não entendia o que eu estava querendo falar, me interrompia me deixando irritado e partia para uma nova e complexa pergunta. A entrevista parecia mais uma aula de expressão corporal.

Eu gesticulando daqui, ela respondendo de lá, entretanto não havia sincronia. A entrevistadora me lançava uns olhares gélidos enquanto observava meus documentos já me condenando a permanecer por aqui.

Veredicto final: “Your visa was denied!” Naquele momento pigarreei com intuito de engolir a saliva que teimava em me incomodar. Percebi ali, que o pigarro não tiraria meu incomodo e como já estava prevendo, foi tudo por água abaixo. Um projeto de anos se desintegrando em poucos minutos. O mundo caiu sobre minha cabeça. Tinha sensação de ter recebido de um médico urologista a notícia que um câncer de próstata, descoberto há pouco tempo, tenha retalhado as minhas possibilidades de viver nada mais que dois meses. Tudo por água abaixo. Fui condenado a viver em uma prisão sem grades em solo brasileiro de onde não poderia tentar outro visto nos próximos seis meses.

Erro de comunicação? Deveria ter me expressado melhor? Literalmente falando, perdi o visto por“ não falarmos a mesma língua.”   

Por Diogo Cavalcanti

Dez horas da noite. Estou cansado. Não tenho vontade de dormir.
Tento a TV.
Tiros e sangue no 62.
Um sucesso de bilheteria no 61.
Um clássico de Fellini no Cult.
Na TNT, um filme que eu já vi.
Na Fox, um filme que não quero ver.
No Multishow tem música.

Na MTV também.
Não vejo novela na Globo, também não vou ver na Record.
Pra mim já chega.
Vou dormir.

Um copo de leite com Nescau e alguns biscoitos.
Escovo os dentes, arrumo a cama.
Estou pronto.

Deito e fecho os olhos.
Espero um pouco.

Um pouco mais.
O sono não vem.
Conto carneirinhos.
Um carneirinho, dois carneirinhos, três, quatro…

Cento e vinte sete…
Perco a conta.
Desisto.

Olho para o teto.
Olho a hora. Dez e quarenta.
Ainda é cedo. Não é hora de dormir.

Por isso não consigo.
Volto para o sofá.
Procuro o controle.
Ligo a TV.

Uma cobra faminta observa um suculento sapo no Discovery.
No Cartoon, um desenho da minha infância.
Um carro explode no AXN e  continuo sem conseguir pegar no sono.

Mudo, mudo e mudo de novo.
O tempo não passa. O sono não vem.

Banho quente para relaxar.
Volto para a sala.
Um filme de suspense no 43
Um crime, muitos suspeitos.
Quem será o assassino?

Fico tenso.
Esqueço o sono. Não quero mais dormir.

Agora quero desvendar o mistério.
Mais mortes, mais tensão.
Tenho um palpite.
Meu suspeito morre.
E agora? Quem é o assassino?
O final se aproxima.
Fecho olho.
Abro E não há mais suspense.
Não há mais filme.
Quem matava? Não sei.
Adormeci.
Agora, sem assassino e sem sono.

Uma hora. Hora de criança estar dormindo.
Não sou mais criança.

Continuo acordado.

No Sportv tem futebol.
O jogo é ruim. Já sei o resultado.
No 60, assisto pôquer.
O barbudo blefa e ganha.
No Shoptime vende-se de tudo.
Tudo é caro.
No 22, vendem-se tapetes.
Quem compra um tapete compra demais.

Os canais passam, mas o tempo custa a passar.
A posição no sofá incomoda.
Já estou deitado.
Chamo o sono. Ele finge que não ouve.
A MTV recomenda um livro.
Não aceito a recomendação.

NET Digital. 24 horas no ar.
O 17 informa a hora, duas e meia.
No 62 não há mais tiros nem sangue.
Na HBO, um filme engraçado, mas não estou com vontade de rir.
Procuro seriados. Eles já vem com risadas embutidas.
Assim, eu economizo as minhas.

No 63, ele se declara e ela aceita.
O amor é lindo.
Bem que a vida poderia imitar a arte.
Não imita.
Penso nela.
O que deve estar fazendo?
Provavelmente dormindo.

Sonhando com os anjos.
Comigo também?
Acho que não.

A vida é dura.

Então eu mudo, e mudo de novo.
Meg Ryan e Nicolas Cage aparecem na tela.
Eles estão felizes.
A felicidade dura pouco.
Ele fica triste. Eu também.

E de repente estou na rua.
Não passa carros nem pessoas.
Estou só.
Um vulto se aproxima.
Ele diz algo.
Eu não entendo.
Ele aponta uma arma e eu não compreendo.
Então atira.
Me sinto quente.
Tudo fica escuro.

Então acordo.
Foi um sonho, um pesadelo.
A TV está ligada.
Enfim consegui dormir.

Por Bruno Duarte

“Quanto mais francos nós formos, menos medo vamos ter, porque não haverá nenhuma ansiedade quanto à possibilidade de sermos desmascarados ou expostos aos outros. Quanto mais honestos nós formos, mais autoconfiança teremos”
- Tenzin Gyatso, o Dalai Lama.

Muita gente se propõe a falar sobre muita coisa. Eu sugerira  aos que levam suas idiossincrasias a cabo deixassem de insuflar seu público em potencial de esperanças vãs, para que estes depois constatem o inevitável: não era nada disso que ele estava esperando.

Sim, porque no curso de comunicação a primeira coisa que se ensina é [que coisa não quer dizer coisa nenhuma e eu deveria retirar essa palavra do meu texto] da arte de inventar bons títulos e descer um lead – vide minhas colegas do D1C que não me deixam mentir.

E não se trata de radicalismo. Estou apenas sendo honesto. O que não passa de uma defesa de minha parte para o sentimento de perda da autoconfiança proveniente do seu desapontamento depois de você se debruçar na janela do meu texto e não conseguir se inserir em minha paisagem.

Então prefiro que venha até aqui buscando um momento de prazer, e não um bife de vocabulário e um pouco de cultura inútil, para tornar mais aprazíveis suas conversas de mesa de bar, a fim de demonstrar que a faculdade está servindo realmente para alguma coisa na sua vida.

Ser honesto é a única forma de não decepcionar os outros e a você mesmo. Me proponho a falar sobre nada para poder dizer um pouco de tudo.

Eu deveria estar iniciando aqui minha carreira bloguística, já tenho várias idéias e meia dúzia de assuntos inusitados, o problema era saber por onde começar. Quer ponto de partida melhor do que o nada? Coisa alguma pode surgir  do nada, mas terminar.